O Importante é o Que Importa.

Friday, November 30, 2007

A Dor da Culpa

- Oi, filho.

- Oi, pai.

- Que carinha é essa? Algum problema?

- Hein? Não, pai, não. Nada de mais.

- Filho, eu sou seu pai, e sei quando tem alguma coisa errada com você. Abre o coraçãozinho, vai.

- Bem, é que... Outro dia acordei com uma puta morta do meu lado.

- Uma puta morta, é?

- Sim, pai, foi horrível!

- Ora, filho, isso é normal! Você não sabe que as putas são cheias de doenças, micróbios e tudo mais? Então, elas morrem toda hora.

- Eu sei pai, mas o problema é que... Eu acho que fui eu que matei!

- Foi, é?

- Foi, pai, foi! Eu não lembro direito como aconteceu, tava muito louco naquele dia, mas acordei segurando uma arma, e ela não acordou com três tiros na cabeça!

- E quem disse que foi você quem matou? Quer dizer, alguém pode ter atirado e colocado a arma na sua mão enquanto você dormia.

- Mas era uma semi-automática igualzinha a que você me deu de natal!

- Ora, existem muitas semi-automáticas no mundo, e...

- Mas essa estava com uma etiqueta escrita de papai para Gabriel!

- Tava, é?

- Tava!

- É, então foi você mesmo. Mas e daí?

- E daí? E daí? E daí que eu matei uma mulher, a culpa está me matando! Eu não sei como vou conseguir viver com isso!

- Ah, garotinho ingênuo... Senta aqui que papai vai te ensinar uma coisa. Culpa só existe quando é dos outros. Quando é com a gente não é culpa, é acidente. Entendeu?

- Não!

- Um exemplo: se alguém entrasse no seu quarto, pegasse sua arma e desse três tiros na puta do seu lado, ele seria culpado, certo? Você ficaria revoltado, daria entrevista pro Datena, e quando capturassem o infeliz exigiria pena de morte.

- Mas fui eu que matei!

- Exatamente. Foi você que matou, portanto foi acidente. Você tava limpando a arma e ela disparou, acidente!

- Mas foram três tiros!

- Bem, você queria deixar ela bem limpa, acidente!

- Acidente, é?

- Acidente!

- Mas eu ainda sinto um pesinho na consciência...

- É só matar ela com álcool!

- É... Tem razão pai, tem razão, foi acidente! Obrigado pai, você é o maior!

- Que isso, filho, estamos aqui pra isso.

- Vou correndo contar pra mamãe!

- Er, filho, acho melhor não...

- Mamãe, o papai falou que culpa só existe quando é... Mamãe?! Aaaaaiiiiii! A mamãe morreu! Esfaquearam a mamãe! Pai, o que aconteceu?!

- É que... Foi acidente!

- Acidente?!

- Acidente!

- Acidente, é?

- É...

- Sei... Hahahahaha, ai papai, você não tem jeito mesmo!

- Hehe, eu sei, eu sei... Mas e aí, partiu Ice?

- Partiu! Mas e essa sujeira toda de sangue na cozinha?

- Ah, deixa aí que sua mãe limpa!

- Tá certo, a minha mãe... Ei!... Hahahahaha!

- Uhuhuhuhuhu!


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Monday, November 26, 2007

As Aventuras de Suzana, a Atriz Pornô Recém Aposentada.

- Ô, mas olha quem está chegando aqui! Susana Vulva, como é que você tá!?

- Ai, Carlos, ocupadíssima, ocupadíssima!

- Tô vendo, você tá agitada, nervosa... Senta aqui no banco! E por que você está assim?

- É o meu trabalho, Carlos! E sabe como é: meu trabalho é duro, né?

Risadas falsas

- É... Mas não me diga que você voltou a fazer filmes pornográficos?!

- Claro que não, Carlos, claro que não!

- Ah, bom...

- Agora estou fazendo filmes de arte, europeus, coisa fina!

- Puxa, que legal! E sobre o que é o filme que você está fazendo?

- Ah, Carlos, é uma linda história de amor... Passada inteiramente em um motel...

Risadas falsas

- Uma história de amor passada em um motel?! E desde quando isso é romântico, Susana?

- Mas é claro que é romântico, Carlos! Você não se lembra porque faz tempo que não vai a um motel...

Risadas falsas

- Olha, Susana!...

- Esse não é um motel qualquer, Carlos! Tem piscina, cama redonda, espelho no teto, coisa de Hollywood!

- Sei, sei... Então é por isso que você está de roupão? Estava na piscina?

- Não, não, é porque eu visto o roupão nos intervalos das filmagens. Sabe como é: meu trabalho é duro, né?

Risadas falsas

- Mas se você veste o roupão nos intervalos, durante as filmagens veste o quê?

- Ué, nada!

Risadas falsas

- Nada?!

- Nada! Mas não vai pensar em besteira, isso é só uma opção artística do meu diretor, Pirocudo Comixana.

Risadas falsas

- Pirocudo Comixana?!

- É, ele é japonês, e disse que o nu representa nossa alma quando... quando... Bem, não lembro, mas representa alguma coisa muito artística e culta, o tipo de coisa que você não entenderia, não é, Carlos?

- Tô começando a entender que esse filme é uma putaria, isso sim...

- Putaria, não! Arte, Carlos, arte! Mas sabe como é: meu trabalho é duro, né?

Risadas falsas

- Sei, sei... E tô vendo que você está segurando um bebê, é seu filho?

- É sim, Carlos, está com cinco meses.

- Ah, que gracinha...

- Aliás, está na hora dele mamar. Mama, filhinho mama...

- Que bonitinho... Mas, Susana... Quantos meses mesmo você disse que ele tem, mesmo?

- Cinco meses, Carlos.

- E já fica de pau duro?!

Risadas falsas

- Claro que não... Ai meu Deus! Esse não é meu filho, é o Pau de Metro, o anão que faz par romântico comigo! Pau de Metro, onde ficou meu filho?!

- Bem, se ele trocou de lugar comigo, das duas uma: ou tá comendo ou tá chupando!

Risadas falsas

- Mas ele não pode comer agora!

- Mas é claro que não, meu Deus, com cinco meses!

- Não é isso, Carlos, é que se ele comer agora vai acabar brochando de noite! Mas sabe como é: meu trabalho é duro, né? Tchau, Carlos, tchau!

- Tchau, Susana! Ai, ai, essa Susana não tem jeito mesmo...

Risadas e aplausos falsos

E meu grande sonho se realizou: escrevi um texto para a Praça é Nossa. Não perca, na próxima 5º feira, Susana Vulva, marcando a volta de Edna Velho à praça, e o anão, interpretado pelo Buiú.
Certamente, um quadro que antes de estrear já é sucesso.


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Lugar de Paz e Tranqüilidade

- Puta que o pariu, lá vem aquela perua escrota encher a porra do meu saco...

- Bom dia, padre.

- Bom dia, dona Narcisa, que surpresa agradável! Como vai a senhora?

- Ai, padre, nada bem, nada bem, eu...

- Desculpe interromper, mas é que nós não permitimos cachorros na igreja.

- AU, AU!

- Não se preocupe padre, eu não vou demorar. É que a minha vida anda tão sofrida, padre, tão sofrida!

- Ah é, é?...

- AU, AU!

- Ai Padre, é só problema pra cima da gente, só problema! Parece que Deus não quer que a gente tenha sossego, sabe?

- AU, AUUUUU, AU!

- Sabe o que é, dona Narcisa? A igreja é um lugar de paz e tranqüilidade, por isso não permitimos a entrada de cachorros.

- Não se preocupe, o Flocos é um anjo. Mas como eu ia dizendo, minha vida é só sofrimento, padre. Por exemplo, semana passada o André levou a namoradinha nova lá em casa, e... Ai, tenho até vergonha de dizer!

- UUUU... UAU!

- É que as outras pessoas que querem rezar podem se incomodar com os latidos...

- Ela é estudante de teatro, padre! De teatro! Já imaginou? Meu filho, André Albuquerque, casado com uma estudante de teatro?! E não é só isso, padre, ela tem um piercing na língua. Na língua! Uma devassa!

- RRRRR... AU, AU, AUUUUUU!

- O barulho pode incomodar as outras pessoas, dona Narcisa, por isso eu...

- Eu não vou demorar, não vou demorar! Mas entende, padre, entende por que ultimamente só o que tenho feito é chorar? Parece que ninguém pensa em mim! É a empregada que só limpa de baixo da geladeira quando toma um esporro meu, o vizinho que às oito da noite liga o som alto e só indo pessoalmente reclamar com ele para que ele desligue, o Flocos que não tem comido a ração nova importada direito, enfim, é tudo em cima de mim!

- AU, AU, AU, AUAUAU, AU, AU, AUAUAU, AU, AU!

- A igreja é um lugar de paz e tranqüilidade, por isso...

- E o pior você não sabe, padre. A bomba que caiu na minha cabeça ontem à noite! O Alberto, meu marido, me deu a notícia que vai ter que viajar pelo menos uma vez por mês a Nova York, a negócios. Uma vez por mês, padre! À Nova York! Com todo o terrorismo, e as bombas lá, e as guerras! Claro, ele vai passar a ganhar bem mais fazendo isso, mas será que ele não percebe o quanto eu vou sofrer?! Será que ninguém percebe minhas preocupações, minhas aflições, meu sofrimento?! Percebe por que eu choro tanto, Padre, como ninguém pensa em mim?!

- AAAAAUUUUUUUU!!! A-A-A-A-AUUUUUUUUUUU!!!

- A IGREJA! É UM LUGAR! DE PAZ! E TRANQÜILIDADE! MERDA! CACHORRO FILHO DA PUTA!

Descontrolado, o padre acertou um chute no animal que fez lembrar seus tempos de jogador de futebol de salão. O mascote voou porta afora e caiu bem no meio da rua, bem embaixo da roda de um caminhão de lixo que passava por ali em uma velocidade incrivelmente alta para um caminhão de lixo.

- AAAAAAAAAAAIIIIIIIIIIIIIIIII, FLOCOS! Padre, pelo amor de Deus, padre, o que o senhor fez, padre?! O senhor matou o Flocos!!!

- Eu?! Não, não, quer dizer... A culpa não foi minha, tá na bíblia, tá na bíblia!

- O que tá na bíblia, padre, pelo amor de Deus, o que tá na bíblia?!

- Está lá: “Chora sem motivo e receberás um motivo real para chorar”! Palavras da salvação!

- Mas... Eu nunca ouvi essa frase na vida... Aonde isso está na bíblia, padre, aonde?!

- Ah, tá por ali... Perto da carta aos corinthianos, eu acho.

- Carta aos corinthianos? O senhor não quer dizer carta aos Coríntios?

- É, é, é um troço desse aí... Então, tá por ali assim, por ali...


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