Palavras que Deveriam Existir
Reza a lenda que os colonizadores ingleses, ao chegarem à Austrália, ficaram espantados em encontrar um estranho animal com uma bolsa na barriga que se locomovia dando largos pulos. O Capitão Cook mandou chamar um nativo e perguntou-lhe, usando gestos, qual era o nome daquele bicho. O aborígene respondeu: - Khan ghu ru, khan gu ru! Anos mais tarde, outros exploradores teriam descoberto o verdadeiro significado daquelas palavras. O índio, ao ver os sinais que lhe faziam os ingleses, responderam: - Não estou entendendo (ou seja, "khan ghu ru" no dialeto local).
Não é por nada não, mas esta história é engraçada demais para ser verídica, e me soa a lenda urbana. De qualquer modo, serve para ilustrar um assunto que sempre me interessou: etimologia, a ciência que estuda a origem das palavras. Por que chamamos o hipopótamo de "hipopótamo"? De onde cargas d'água surgiram vernáculos como "capicua", "ornitorrinco" e "vernáculo"?
Shakespeare, no ato 2 da peça Romeu & Julieta, tergiversa sobre o assunto: "O que há em um nome?/ Pois aquilo que chamamos de rosa/ Por qualquer outro nome/ Exalaria o mesmo doce perfume". Quem já estudou lingüística sabe que palavras não passam de signos lingüísticos previamente convencionados por um sistema de sinais. Ou seja, partem de uma relação semelhante à dos sinais de trânsito, cuja lógica arbitrária faz com que vermelho signifique "pare", e verde, "prossiga" (a não ser que você seja daltônico).
Contudo, cada palavra que utilizamos no dia-a-dia tem a sua história e reflete as evoluções culturais sofridas pela sociedade em que vivemos atualmente. Há quinze anos, quem imaginaria que palavras como "popozuda", "mouse" e "escanear" existiriam? Do mesmo modo, fico pensando se daqui a quinze anos meus sobrinhos conhecerão o significado de substantivos como "vitrola" ou expressões como "futebol-arte".
Idiomas são organismos vivos, que refletem as mudanças do mundo ao seu redor. Necessitam, pois, incorporar diariamente novos jargões, neologismos e estrangeirismos ao seu repertório, a fim de que possam sobreviver. Caso contrário, murcham e morrem, feito o latim e milhares de outras línguas e dialetos soterrados nestes séculos de civilização. Faz muito bem, pois, a última flor do Lácio, ao adaptar com ginga os anglicismos que vão sendo incorporados por seus poucos e fiéis seguidores, nesta verdadeira bacanal lingüística: é assim que "whisky" virou uísque, e "Whoop! There It Is" (refrão de uma música do grupo americano Tag Team) metamorfoseou-se no hino de todas as torcidas "uh tererê!".
Há um ótimo texto de Sérgio Augusto, publicado no Digestivo Cultural, que aborda este assunto. Em seu artigo "Para tudo existe uma palavra", Sérgio cita algumas palavras que gostaria que fossem adotadas pela língua portuguesa. Por exemplo: Razbliuto, palavra russa que significa o sentimento carinhoso que nutrimos por uma pessoa que um dia amamos. Ou Mamihlapinatapei, vocábulo genial que pertence a um idioma indígena da Terra do Fogo. E que quer dizer, simplesmente, o "ato de olhar nos olhos do outro, na esperança de que o outro inicie o que ambos desejam mas nenhum tem coragem de começar". Depois dessa, só posso dizer uma coisa: uau!
Não é por nada não, mas esta história é engraçada demais para ser verídica, e me soa a lenda urbana. De qualquer modo, serve para ilustrar um assunto que sempre me interessou: etimologia, a ciência que estuda a origem das palavras. Por que chamamos o hipopótamo de "hipopótamo"? De onde cargas d'água surgiram vernáculos como "capicua", "ornitorrinco" e "vernáculo"?
Shakespeare, no ato 2 da peça Romeu & Julieta, tergiversa sobre o assunto: "O que há em um nome?/ Pois aquilo que chamamos de rosa/ Por qualquer outro nome/ Exalaria o mesmo doce perfume". Quem já estudou lingüística sabe que palavras não passam de signos lingüísticos previamente convencionados por um sistema de sinais. Ou seja, partem de uma relação semelhante à dos sinais de trânsito, cuja lógica arbitrária faz com que vermelho signifique "pare", e verde, "prossiga" (a não ser que você seja daltônico).
Contudo, cada palavra que utilizamos no dia-a-dia tem a sua história e reflete as evoluções culturais sofridas pela sociedade em que vivemos atualmente. Há quinze anos, quem imaginaria que palavras como "popozuda", "mouse" e "escanear" existiriam? Do mesmo modo, fico pensando se daqui a quinze anos meus sobrinhos conhecerão o significado de substantivos como "vitrola" ou expressões como "futebol-arte".
Idiomas são organismos vivos, que refletem as mudanças do mundo ao seu redor. Necessitam, pois, incorporar diariamente novos jargões, neologismos e estrangeirismos ao seu repertório, a fim de que possam sobreviver. Caso contrário, murcham e morrem, feito o latim e milhares de outras línguas e dialetos soterrados nestes séculos de civilização. Faz muito bem, pois, a última flor do Lácio, ao adaptar com ginga os anglicismos que vão sendo incorporados por seus poucos e fiéis seguidores, nesta verdadeira bacanal lingüística: é assim que "whisky" virou uísque, e "Whoop! There It Is" (refrão de uma música do grupo americano Tag Team) metamorfoseou-se no hino de todas as torcidas "uh tererê!".
Há um ótimo texto de Sérgio Augusto, publicado no Digestivo Cultural, que aborda este assunto. Em seu artigo "Para tudo existe uma palavra", Sérgio cita algumas palavras que gostaria que fossem adotadas pela língua portuguesa. Por exemplo: Razbliuto, palavra russa que significa o sentimento carinhoso que nutrimos por uma pessoa que um dia amamos. Ou Mamihlapinatapei, vocábulo genial que pertence a um idioma indígena da Terra do Fogo. E que quer dizer, simplesmente, o "ato de olhar nos olhos do outro, na esperança de que o outro inicie o que ambos desejam mas nenhum tem coragem de começar". Depois dessa, só posso dizer uma coisa: uau!

